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quarta-feira, 13 de novembro de 2013
terça-feira, 12 de novembro de 2013
A Nudez na História da Vida Privada - Texto 4
A Nudez na História da Vida Privada
Henrique FerrazEstudante de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP - Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo
Nadime L'Apiccirella
Estudante de Psicologia da UFSCar - Universidade Federal de São Carlos.
Da Renascença à Revolução Francesa
Evidentemente,
é sobre o corpo que as normas da civilidade se exercem com maior rigor. Não é
ele ao mesmo tempo a base das paixões, uma incansável moralização das condutas
ordena que se esqueça o corpo e respeite a presença divina. Ela traça um
caminho difícil e cheio de contradições. "Foi o pecado que nos impôs a
necessidade de vestir-nos e cobrir de roupa nosso corpo", portanto a vestimenta
deve obedecer a uma norma religiosa e moral que em todos os casos associa a
nudez ao pecado original.
Em
determinados casos essa evolução sobre o corpo e a nudez começou muito antes do
século XVIII. A decência específica, exigida na época de início, era que
"algumas partes do corpo o pudor natural nos leva a esconder".
Depois, a relação com o corpo ficou mais severa: É muito honesto para uma
criança pequena manusear suas partes pudentas, mesmo com vergonha e pudor.
Mas
tudo não passa de uma única teoria: "O julgamento moral está totalmente
integrado à experiência corporal". Ainda que se trate aqui de uma função
considerada vil e repulsiva, no entanto com relação aos gestos mais cotidianos,
progressivamente, se impõe uma distância que, do corpo ao corpo, tende a intercalar
o espaço neutro de uma tecnologia que governa a ameaçadora espontaneidade da
sensualidade. Assim como quando se está deitado, não se devia deixar que as
cobertas sugerissem a forma do corpo, assim como, "quando sair da cama não
se deve deixá-la descoberta, nem colocar a touca de dormir em algum assento ou
outro lugar onde outros possam vê-la. A vigilância se tornou tão estreita que
acabou proibindo toda relação imediata consigo mesmo: o decoro exige também
que, ao nos deitarmos, escondamos de nós mesmos o nosso corpo e evitemos
lançar-lhe até os menores olhares". Negação radical de qualquer
intimidade.
Às
vésperas do Iluminismo, toda uma gama de práticas corporais cai, assim, numa
clandestinidade furtiva, vergonhosa. Organiza-se ao redor do corpo uma esfera
do silêncio e do segredo. Do privado ao público, do íntimo ao secreto: não
forçaremos porém, as linhas de uma evolução extraordinariamente complexa. Se é
clara a direção em que os comportamentos mudam entre o século XVI e o começo do
XIX, tais transformações se efetuaram em rítmos e segundo cronologias muito
variáveis. As funções corporais logo são subtraídas ao campo da civilidade.
Do
final da Idade Média a meados do século XVIII, nossos tratados em particular
ignoram o corpo, à exclusão do rosto e das mãos, que são as únicas partes
expostas. Os cuidados concentram-se no visível, na roupa e, sobretudo, na roupa
branca, cujo frescor ostentado na gola e nos punhos constitui sinal autêntico
do asseio. Porém, ao mesmo tempo, é inseparável de uma idéia do corpo que
rejeita a água como um agente perigoso, suscetível de penetrar por toda parte.
A
higiene reabilita a intimidade corporal. Enfocada pela medicina e depois levada
às escolas, logo se tornará, aliás, o dispositivo inédito de uma forma de
controle coletivo dos comportamentos. Vemos que a socialização das técnicas do
corpo, por mais que sejam expressamente reguladas, na verdade, só conseguem
impor-se através de registros de representações e de práticas estabelecidas, ao
mesmo tempo que ultrapassam o campo específico da civilidade.
A
roupa foi usada com a função de esconder a superfície do corpo. Mas faz
da corporal o objeto de investimentos autônomos. A história do asseio não é intimidade
isolada, em todo caso, convida a reconhecer no mundo dos gestos reprovados a
outra forma silenciosa de intimidade.
Veyne,
Paul. História da vida privada: do
Império Romano ao ano Mil. Companhia
das letras, 1990, 14ª edição.
Duby,
Georges. História da vida privada: da
Europa Feudal à Renascença. Companhia
das letras, 1990, 10ª edição.
Aries,
Philippe, & Charier, Roger. História
da vida privada: da Renascença ao Século das Luzes. Companhia das letras, 1991, 8ª edição.
Duby,
Georges, & Aries, Philippe. História
da vida privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. Companhia das letras, 1995, 1ª edição.
Prost,
Antoine, & Vincent, Gerard. História
da vida privada: da Primeira Guerra aos dias atuais. Companhia das letras, 1995, 1ª edição.
© Revista Eletrônica de Ciências -
Número 21 - Agosto / Setembro de 2003.
Imagens do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades ocidentais - Texto 3
Imagens
do corpo: reflexões sobre as acepções corporais construídas pelas sociedades
ocidentais
Thiago Pelegrini
Cabe lembrar que os ideais iluministas (século XVIII) acabaram por
acentuar a depreciação do corpo, dissociando-o da alma, retomando a dicotomia
corpo-alma, arquitetada na antiguidade clássica. O pensamento iluminista negou
a vivência sensorial corpórea, atribuindo ao corpo um plano inferior. As
necessidades de manipulação e domínio do corpo, paralelamente, concorreram para
a delimitação do homem como ser moldável e passível de exploração.
A expansão do capitalismo, no século XIX, propagou a forma de produção
industrial em que a instrumentalização do corpo fazia-se necessária. A
padronização dos gestos e movimentos instaurou-se nas manifestações corporais.
As novas tecnologias de produção em massa desencadearam um processo de
homogeneização de gestos e hábitos que se estendeu a outras esferas sociais,
entre elas a educação do corpo, que passou a identificar-se não só com as
técnicas, mas também com os interesses da produção (HOBSBAWM, 1996).
A evolução da sociedade industrial propiciou um
elevado desenvolvimento técnico-científico. As novas possibilidades
tecnológicas propiciaram a elite burguesa moderna, um incremento de técnicas e
práticas sobre o corpo. O aumento da expectativa de vida, as novas formas de
locomoção e comunicação expandiram as formas de interação e realização de
atividades corporais. O fácil acesso à informação trouxe infinitas
possibilidades ao conhecimento. Contudo,
a padronização dos conceitos de beleza, fundados no corpo magro ou musculoso
ancorada pela necessidade de consumo criada pelas novas tecnologias e
homogeneizada pela lógica da produção, foi responsável por uma diminuição
significativa na quantidade e na qualidade das vivências corporais do homem contemporâneo.
HOBSBAWM, Eric J. A era do capital, 1848-1875. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1996.
Merengué, Devanir. A ordem e o mercado de
prazeres. In: BRUHNS, Heloísa Turini e GUTIERREZ, Gustavo Luís (orgs.). Enfoques contemporâneos do lúdico: III
Ciclo de Debates Lazer e Motricidade. Campinas , Autores Associados, 2002.
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